Essa semana tive uma conversa com uma colega do curso de holandês que me fez refletir muito. O grupo estava discutindo sobre a educação aqui na Holanda. Quais seriam os temas mais importantes para as crianças aprenderem durante o ensino básico (dos 4 aos 12 anos)? Foram selecionados vários temas relativos a Holanda e nós tínhamos que escolher os três mais importantes. Eu e uma colega de Burundi (um país minúsculo na África) sentamos juntas para pensar. Dentre os temas existentes havia Vincent Van Gogh, Anne Frank, a Segunda Guerra Mundial, a enchente que matou milhares de pessoas na Holanda em 1953, etc.
Para a minha grande surpresa, minha colega começou a me perguntar quem era Vang Gogh, quem era Anne Frank e por aí vai...
Bem, ela já mora aqui há 3 anos, tem 23 anos. Então pensei: que estranho... Ela mora aqui há tanto tempo e nunca ouviu falar nessas coisas tão típicas da Holanda!
No intervalo da aula, resolví conversar mais com ela e saber mais sobre a sua história de vida. Ela me contou que veio pra Holanda porque estava fugindo da guerra em seu país. Perdeu os pais, amigos e familiares, restando apenas sua irmã. Souberam que tinha um tio asilado aqui na Holanda e fugiram tentando encontrá-lo aqui. Deram entrada no pedido de asilo e o governo mandou que elas esperassem pela resposta do pedido. Elas ficaram morando em um lugar com outras pessoas estrangeiras que também estavam na mesma situação. Pessoas que elas nunca tinham visto, que falavam outras línguas, enfim... para duas jovens órfãs de 19 e 20 anos, não foi a coisa mais divertida do mundo.
Elas esperaram, esperaram... e só agora, 3 anos depois, saiu finalmente a autorização para que elas aqui morassem. Durante esse período de espera, ela ficou dentro de casa. Não sabia falar holandês, não podia se matricular num curso para estudar a língua, não tinha conta em banco, não tinha amigos, não tinha trabalho... enfim, 3 anos presa em casa aguardando a resposta do governo. Tava explicado o porquê dela nunca ter ouvido falar em Vincent Van Gogh...
Essa triste história me fez refletir muito sobre a situação dos estrangeiros que aqui vivem. Não só a Holanda, mas outros países europeus como Alemanha e França, enfrentam um dilema sério acerca da imigração. Aqui na Holanda, especialmente, vejo que existe uma grande preocupação em controlar esse processo, já que se trata de um país muito pequeno, onde mal cabem os holandeses, as vacas e bicicletas. Se existe um lugar no mundo onde organização é uma palavra seguida à risca, é a Holanda. Por isso, entendo que os governantes não querem perder as rédeas de tanta organização, nem querem que a qualidade de vida dos habitantes caia em virtude de problemas sociais causados por estrangeiros que não se adaptaram ao estilo de vida holandês. Entendo que as portas estão praticamente fechadas para essa imigração, uma vez que a sociedade holandesa hoje tem segurança, dinheiro, economia estável, educação de alto nível, enfim, qualidade de vida nota 10. Mas por outro lado, sinto que às vezes falta um pouco mais de humanidade sobre o assunto. A maioria dos estrangeiros que procuram a Holanda para morar estão fartos de viver sobre o medo da guerra e de conviver com a morte tão perto. Muitos deles são turcos, marroquinos, iraquianos, iranianos e africanos que buscam um futuro de paz para suas famílias, um lugar onde possam construir uma vida digna, trabalhar, dar educação, paz e segurança aos seus filhos. Acreditar que há um futuro.
Criar uma atmosfera negativa a essa imigração só faz com que eles se sintam mais discriminados, marginalizados, e que procurem cada vez menos se integrarem à sociedade holandesa, mantendo seus contatos apenas com outros imigrantes.
Entendo o medo dos governantes, mas penso que podem ter um pouco mais de cuidado com essas pessoas, porque afinal, são pessoas, e não números ou papéis.
Acho que é possível sim agir com um pouco mais de simpatia e humanidade na hora de tratar desse assunto tão delicado e difícil.
O que vocês acham?
A foto é do meu grupo do curso de Holandês. Algumas pessoas não estão presentes, e a foto tá meio longe, mas eu estou com uma blusa preta sentada, segurando um casaco vermelho... Tem americano, japonês, turco, marroquino, polonês, africano...
Beijos!
Oi, Nanda
ResponderExcluirÓtimo título -Guerra e Paz" com que vc nos descreve esse drama de alguns imigrantes. Foi com esse mesmo título que Tolstoi nos legou a sua grande obra da literatura clássica mundial, na qual descrevia o episódio da guerra franco-russa de 1812.
Se eu estivesse junto a vocês duas para escolher qual o melhor tema para as crianças aprenderem durante o ensino básico,eu escolheria a verdade na proporção do entendimento da criança, ainda que púdéssemos falar em Van Gogh, Anne Franck e na Segunda Guerra Mundial.
Claro que a sua amiga, sob o peso do drama bélico africano e da grande restrição da imigração holandesa, não saberia quem era Gogh,Anne Frank e, quem sabe? o que aconteceu na última G/Guerra.
Veja só, vc começa a recolher dados de alta significação social, racial e internacional que, às vezes, passam desapercebidos de muita gente, mas que, inseridos numa obra clássica - como fez Tolstoi - podem repercutir positivamente como um "best seller".
O drama dessa sua amiga de Burundi, na África, provavelmente seja o mesmo de milhares de estrangeiros que estão a fugir de seus ninhos violentos, em busca de "ilhas de paz num mar em fúria", como foi considerada a Suiça, no curso da II G/Guerra, e para a qual a Holanda está sendo agora procurada por essa sua simpática colega.
Jamais um brasileiro, acostumado a viver a la vontée,ao sol de praias límpidas e alvinitentes, completamente livre,longe de guerras,poderá pensar em ver-se fugitivo em um país estrangeiro, enclausurado numa casa, sem poder sair e - o que é mais complicado - sem falar uma difícil lingua como é o holandês...
Quais os meios de persuasão que poderíamos empregar, para que um país pequeno e organizado como a Holanda, permitisse a indiscriminada entrada de imigrantes em seu território? E, se essas entradas indiscriminadas resultassem, como vem acontecendo aki entre nós,naquilo que os nossos políticos e admninistradores, no seu paternalismo eleitoreiro, foram permitindo, isto é, o favelamento irresponsável, hoje transformado num insolúvel problema social,além de constituir num dos maiores focos de periculosidadeom contra a população odrdeira e trabalhadora?
Todos são iguais perante a lei, aprendemos isso no estudo do Direito, cujas regras regulam as relações de convívio de toda a população. Isto quer dizer que a ordem jurídica tem de ser obedecida e respeitada por todos, do contrário instalar-se-ia o cáos. Podemos ser caridosos, mas não vamos distribuir todos os nossos haveres com aqueles que nada fizeram para tê-lo. A justiça divina - a absoluta - está relacionada com o mérito, jamais pelo direito de ter as coisas sem fazer força, não é mesmo?. Logo, se não submetermos às regraa do Direito certas concessões, a vaca vai pro brejo....Lembremo-nos que somos "depositários fiéis, ou infiéis" de tudo aquilo que dispomos pra viver, e que um dia prestaremos conta desses depósitos porque, em verdade, não somos donos de nada...
Oi, Nanda, eu não paro. Sou um incansável leguleio. Falo, falo...e, se deixar, varo a madrugada. Por falar em madrugada, como já são 2:45 por aí por Utrecht, vc só vai ler este catatau amanhã de manhã. São 9:45, vou me preparar para ver o jogo do Brasil contra a Colômbia. Gostei mto desse seu trabalho Guerra e Paz, prossiga. Por hora, vcs dois recebam um beijão do Vô Clério.